- bença mãe, bença pai...e segue com passos rápidos pro quarto quando de costas ouve sua mãe perguntar: - não vai tomar bença pro teu pai?
Das Dores se vira e vê a mãe apontando pro outro canto da sala, um homem de bigode amarelado e com olhar vazio, frio mesmo. Sem entender pede a benção pra ele, quando sua mãe preenche dizendo: - Esse é seu verdadeiro pai! Nesse instante vê um sorriso diabólico na cara daquele desconhecido e em estado de quase morte consegue correr pro quarto. Por lá fica em completo desespero e chora, chora tanto que adormece e só acorda algumas horas depois quando ouve a porta da sala bater e as vozes silenciarem. Das Dores experimenta um alívio jamais sentido, nem quando sua mãe lhe surrava para depois quando findada a surra, lhe mandava deitar. Ninguém tocou mais no assunto, muito menos Das Dores ousaria. À noite, sabia que seus pais iam sair pra alguma coisa importante pois tavam arrumando as roupas de festa. Por volta das dezenove horas eles sairam e Das Dores ficou sentada na porta de casa por um bom tempo quando todas as luzes que não eram muitas desligaram e tudo ficou escuro. Das Dores só sentiu quando alguém a pegou e a jogou nos ombros e saiu correndo, taparam sua boca e por algum tempo correram com ela até chegarem num carro e a jogarem dentro. Assustada, ainda teve tempo de ver a estrada em que estavam e ao longe reconhecer sua mãe ajoelhada no chão parecendo chorar. Essa foi a ultima vez que a viu. Jamais esqueceu aquele quadro que foi diminuindo diminuindo até não ver mais nada. Foi a derradeira lembrança viva de sua mãe, que morreu um ano depois. Das Dores foi levada por seu pai pro interior do Maranhão, lá conheceu sua verdadeira mãe e irmãos. Descobriu que tinha sido dada quando nasceu por sua mãe pra um casal que lhe ofereceu uma quantia em dinheiro. Até então Das Dores acreditava que era boa a vida que levava com os pais adotivos, pois apanhava muito é verdade sua mãe era severa e seu pai ausente mas lhe davam roupa nova e podia comer sentada à mesa. Agora com os pais legítimos era tão diferente! apanhava todo dia por qualquer coisa feita ou não feita, descobriu que foi a única dada de sete irmãos e ainda comia no chão, nunca junto com os outros , nunca descobriu o por quê. Essa dúvida a seguirá por boa parte de sua vida. Das Dores entrou em depressão que sua mãe nomeava de preguiça e por isso apanhava. Pegou piolho , vermes e bicho- de- pé. Passaram alguns anos e Das Dores já mais calejada '' das dores'' resolve fugir. A casa de sua mãe ficava léguas longe de tudo, no meio do mato mas não havia outro jeito de se livrar daquela escravidão e com dez anos apenas se prepara para a fuga, aproveita certa distração de sua mãe e corre, corre muito, corre o dia todo se furando nos espinhos de tucum mas para isso ela nem liga, era só mais uma ferida e continua a correr até chegar na casa de sua avó materna quando desfalece de cansaço em frente à porta. Sua avó a acolhe e a deixa descansar. Das Dores adormece até o anoitecer quando acorda pelos gritos de sua mãe que acabara de chegar. Meio atordoada reúne forças e foge pelos fundos e corre, corre muito até cansar Se esconde num buraco mas de onde estava dava pra ouvir os gritos, palavrões e o latido do cão que sua mãe trazia para caçá-la. Na noite escura conseguiu se esconder bem mas não conseguiu deixar esconder o que sua mãe desejou em alto som, que fosse esmagada por um caminhão. Foi a ultima vez que ouviu sua mãe....