quarta-feira, 30 de março de 2011

penas flutuantes continuação

que o tio estava preso e tinha sido torturado, eram anos 70....Meu tio sumiu enquanto ouvíamos a banda tocar, pasou algum tempo sumido e depois apareceu. Ele nunca mais foi a mesma  pessoa, tinha uma coisa esquisita de se esconder quando via penas flutuando no quintal ou qualquer outro lugar. O que ouvimos de nossa mãe mudaria também minha vida em certo aspecto. No lugar onde meu tio ficou confinado haviam muitos pombos sabe-se lá por quê, e ele por causa dos pombos sabia quando ia ser torturado, pois do cativeiro onde se encontrava dava pra cair sobre ele algumas penas dos pombos que lá viviam e quando o sargento chegava pra iniciar a sessão de tortura espantava-os com não menos violência o pequeno bicho que em seu reflexo de se salvar dos chutes deixava algumas penas cairem, e elas caiam em cima de meu tio. Parece que meu tio fez uma estranha mas possível associação de dor e pena, pena da dor ou dor da pena, não sei. Eu também por algum motivo inconsciente fiz uma nefasta conexão que só depois pude entender. Hoje não sonho mais,   nem tampouco ouço bandas marciais.

penas flutuantes

Sempre me causou intriga o fascínio que os pombos e em especial, os pombos correios causavam em mim. Lembro que quando criança perseguia a ideia de entender como eles sabiam para onde ir e a quem entregar a mensagem. Durante um certo tempo em minha adolescencia tive sonhos recorrentes  com ''penas caindo''e quase sempre acordava  suada e com intensa angústia que não atinava. Lembro que no quintal do velho casarão  onde morava apareciam pombos e eu gostava de vê-los fazendo voos rasantes e decolagens perfeitas como aviões desenhados por minha pueril imaginação. Não eram tempos fáceis, eram os anos 70....nessa época em algum momento que não posso definir passei a ser atormentada por tais sonhos fóbicos até que certo dia conversando com minha irmã, remechendo em lembranças da infancia me surpreendicom uma história que havia sido apagada ou recalcada de minha memória, uma revelação que me faria entender mais tarde aqueles sonhos. Década de 70, morávamos próximos do quartel do exército e recordo claramente .....                 
to be continued in the next post.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A Casa de Nuvens

      Fazia muito tempo que havia deixado aquela casa. Parecia cansada pelo tempo, as paredes da frente ainda resistiam aos raios  insolentes do sol que teimavam em passar a vegetação que encobria partes dela. Empurrei o pequeno portão da entrada já bastante enferrujado e como mergulhada num transe me vi atravessando um pequeno jardim de junquilhos brancos e roseos, mais adiante as roseiras  trepadeiras subiam pelas janelas. O aroma era forte e agradável e logo percorri o longo corredor que me levava até a porta central. Abri a porta, era uma porta com uma portinhola no centro que só abria pelo lado de dentro para se ver quem estava chegando. Abri então a porta como quem tem medo de encontrar algo que não se quer ver, mas ao abrí-la eu vi ! Vi sim! Vi claramente aquela senhora sentada à máquina de costura cosendo uma roupa num tecido estampado em flores ...aquela estampa me trazia alegria na barriga ! .....  alegria na barriga! Então reparando melhor vejo que uma menina brinca em baixo do gabinete da máquina. Parecia tão distante! Os dias que minha mãe costurava roupas pra gente eram dias de nuvens porque era assim que eu me sentia leve, alegre, eram dias de nuvens! A luz do sol descia pela escada que dava para o andar superior onde ficariam os quartos que ainda seriam contruidos, assim se acreditava, mas nunca foram. Seus cabelos refletiam a luz e lhes davam um tom castanho avermelhado. Da cozinha vinha um cheiro da calda de chocolate que mergulhavá-mos os dedos pra depois nossa avó lambê-los cada dedo das nosas mãos num jesto de amor e cumplicidade. Volto à sala de costura e de repente uma pomba bate as asas em um vôo assustado que me assusta também e me tira de minhas saudosas lembranças mas ainda consigo ver as marcas da cadeira de balanço onde meu pai sentava e fumava aquele charuto de cheiro muito forte ao mesmo tempo que lia para alguém que nunca lhe ouvia, até chegar a hora em que éramos chamados para irmos pra cozinha lá pelas tres horas da tarde tomarmos café com bolinhos de chuva que minha mãe sempre mandava fazer. Sentávamos todos em volta da mesa e aquele momento tão mágico eu não poderei esquecer, pois foram os melhores da família e não poderia ter outro melhor, tão simples e tão familiar, sei que nunca mais viverei aquele quadro. Agora alguma coisa falta, há alguma falta de certo. Fecho então a porta atrás de mim e penduro a placa de vende-se.