domingo, 24 de abril de 2011

Espinho de Tucum

Maria das Dores contava já com seus oito anos mais ou menos quando tudo mudou em sua miserável vida. Como de costume, naquele dia foi lavar roupa no córrego que ainda teimava em existir em meio ao sertão bravo do interior do Ceará. Das Dores daquela vez não brincou como das outras tantas,  naquele dia, tudo parecia mais calmo. O rio parecia mais lento, pouco vento...tudo estava estranhamente calmo e nem as lavadeiras foram fezer o velho ofício.  Das Dores termina de lavar, pega sua trouxa põe na cabeça e segue pro rumo de casa por uma estrada comprida e estreita de areia branca e  de vez em quando tinha que sair pro lado pra dar passagem pra outro qualquer passar. Ao chegar em casa já completamente seca, passa pela sala e vê seus pais sentados e automaticamente pede-lhes a benção.
- bença  mãe, bença pai...e segue com passos rápidos pro quarto quando de costas ouve sua mãe perguntar: - não vai tomar bença pro teu pai?
Das Dores se vira e vê a mãe apontando pro outro canto da sala, um homem de bigode amarelado e com olhar vazio, frio mesmo. Sem entender pede a benção pra ele, quando sua mãe preenche dizendo: - Esse é seu verdadeiro pai! Nesse  instante vê um sorriso diabólico na cara daquele desconhecido e em estado de quase morte consegue correr pro quarto. Por lá fica em completo desespero e chora, chora tanto que adormece e só acorda algumas horas depois quando ouve a porta da sala bater e as vozes silenciarem. Das Dores experimenta um alívio jamais sentido, nem quando sua mãe lhe surrava para depois quando findada a surra, lhe mandava deitar.  Ninguém tocou mais no assunto,  muito menos Das Dores  ousaria. À noite, sabia que seus pais iam sair pra alguma coisa importante pois tavam arrumando as roupas de festa. Por volta das dezenove horas eles sairam e Das Dores ficou sentada na porta de casa por um bom tempo quando todas as luzes que não eram muitas desligaram e tudo ficou escuro. Das Dores só sentiu quando alguém a pegou e a jogou nos ombros e saiu correndo, taparam sua boca e por algum tempo correram com ela até chegarem num carro e a  jogarem dentro. Assustada, ainda teve tempo de ver a estrada em que estavam e ao longe reconhecer sua mãe ajoelhada no chão parecendo chorar. Essa foi a ultima vez que a viu. Jamais esqueceu aquele quadro que foi diminuindo diminuindo até não ver mais nada. Foi a derradeira lembrança viva de sua mãe, que morreu um ano depois. Das Dores foi levada  por seu pai pro interior do Maranhão, lá conheceu sua verdadeira mãe e irmãos. Descobriu que tinha sido dada quando nasceu por sua mãe pra um casal que lhe ofereceu uma quantia em dinheiro. Até então Das Dores acreditava que era boa a vida que levava com os pais adotivos, pois apanhava muito é verdade sua mãe era severa e seu pai ausente mas lhe davam roupa nova e podia comer sentada à mesa. Agora com os pais legítimos era tão diferente! apanhava todo dia por qualquer coisa feita ou não feita, descobriu que foi a única dada de sete irmãos e ainda comia no chão, nunca junto com os outros , nunca descobriu o por quê. Essa dúvida a seguirá por boa parte de sua vida. Das Dores entrou em depressão que sua mãe nomeava de preguiça e por isso apanhava. Pegou piolho , vermes e bicho- de- pé. Passaram alguns anos e Das Dores já mais calejada '' das dores'' resolve fugir. A casa de sua mãe ficava léguas longe de tudo, no meio do mato mas não havia outro jeito de se livrar daquela escravidão e com dez anos apenas se prepara para a fuga, aproveita certa distração de sua mãe e corre, corre muito, corre o dia todo se furando  nos espinhos de tucum mas para isso ela nem liga, era só mais uma ferida e continua a correr até chegar na casa de sua avó materna quando desfalece de cansaço em frente à porta. Sua avó a acolhe e a deixa descansar. Das Dores adormece até o anoitecer quando acorda pelos gritos de sua mãe que acabara de chegar. Meio atordoada reúne forças e foge pelos fundos e corre, corre muito até cansar Se esconde num buraco mas de onde estava dava pra  ouvir  os gritos, palavrões e o latido do cão que sua mãe trazia para caçá-la. Na noite escura conseguiu se esconder bem mas não conseguiu deixar esconder o que sua mãe desejou em alto som, que fosse esmagada por um caminhão. Foi a ultima vez que ouviu sua mãe....