quinta-feira, 24 de março de 2011

A Casa de Nuvens

      Fazia muito tempo que havia deixado aquela casa. Parecia cansada pelo tempo, as paredes da frente ainda resistiam aos raios  insolentes do sol que teimavam em passar a vegetação que encobria partes dela. Empurrei o pequeno portão da entrada já bastante enferrujado e como mergulhada num transe me vi atravessando um pequeno jardim de junquilhos brancos e roseos, mais adiante as roseiras  trepadeiras subiam pelas janelas. O aroma era forte e agradável e logo percorri o longo corredor que me levava até a porta central. Abri a porta, era uma porta com uma portinhola no centro que só abria pelo lado de dentro para se ver quem estava chegando. Abri então a porta como quem tem medo de encontrar algo que não se quer ver, mas ao abrí-la eu vi ! Vi sim! Vi claramente aquela senhora sentada à máquina de costura cosendo uma roupa num tecido estampado em flores ...aquela estampa me trazia alegria na barriga ! .....  alegria na barriga! Então reparando melhor vejo que uma menina brinca em baixo do gabinete da máquina. Parecia tão distante! Os dias que minha mãe costurava roupas pra gente eram dias de nuvens porque era assim que eu me sentia leve, alegre, eram dias de nuvens! A luz do sol descia pela escada que dava para o andar superior onde ficariam os quartos que ainda seriam contruidos, assim se acreditava, mas nunca foram. Seus cabelos refletiam a luz e lhes davam um tom castanho avermelhado. Da cozinha vinha um cheiro da calda de chocolate que mergulhavá-mos os dedos pra depois nossa avó lambê-los cada dedo das nosas mãos num jesto de amor e cumplicidade. Volto à sala de costura e de repente uma pomba bate as asas em um vôo assustado que me assusta também e me tira de minhas saudosas lembranças mas ainda consigo ver as marcas da cadeira de balanço onde meu pai sentava e fumava aquele charuto de cheiro muito forte ao mesmo tempo que lia para alguém que nunca lhe ouvia, até chegar a hora em que éramos chamados para irmos pra cozinha lá pelas tres horas da tarde tomarmos café com bolinhos de chuva que minha mãe sempre mandava fazer. Sentávamos todos em volta da mesa e aquele momento tão mágico eu não poderei esquecer, pois foram os melhores da família e não poderia ter outro melhor, tão simples e tão familiar, sei que nunca mais viverei aquele quadro. Agora alguma coisa falta, há alguma falta de certo. Fecho então a porta atrás de mim e penduro a placa de vende-se.

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